III.
ENFOQUE FENOMENOLGICO
DA PERSONALIDADE
1 - Esclarecimentos 
1. A trajet ria percorrida 
Como j mencionei anteriormente, penso que, de certo modo, o incio de minha abertura para a 
Fenomenologia surgiu de forma informal e espontnea h muito tempo atrs, quando eu era ainda 
criana e comecei a me preocupar, me envolver e refletir sobre minha vivncia e das pessoas com 
quem convivia, na tentativa de descobrir meios para amenizar a angstia que sentia por no 
conseguir manter, permanentemente, o amor delas por mim. Esse tipo de envolvimento, preocupao 
e reflexo, tem-se mantido durante toda minha existncia; porm, o alvo de minhas tentativas, com o 
decorrer do tempo, passou a se tomar cada vez mais amplo. Assim, no incio, eu pretendia apenas 
amenizar minhas aflies procurando recursos para me sentir querida; depois, gradativamente, meu 
objetivo passou a ser o de tentar chegar a uma compreenso do meu existir e do de meus 
semelhantes, que pudesse nos propiciar viver e conviver de modo a nos tomarmos, o mximo 
possvel, realizados.., e felizes. 
Naquela ocasio e at o incio da juventude, eu no tinha encontrado, ainda, o respaldo de 
conhecimentos cientficos que me possibilitassem enunciar, de forma organizada, as minhas 
reflexes. Eles s comearam a surgir a partir do meu ingresso na Universidade; desde ento, 
prosseguem surgindo, cada vez mais numerosos e complexos, envolvendo-me na estimulante certeza 
de que jamais conseguirei esgot-los. 
Entretanto, nesse longo percurso, houve um momento no qual senti necessidade de fazer uma pausa 
para organizar e enunciar as experincias e reflexes at ento acumuladas, num conjunto de 
formulaes que denominei, restritamente, de enfoque fenomenolgico da personalidade, mas que 
num sentido amplo diz respeito ao modo como, atualmente, compreendo o meu existir e o de meus 
semelhantes. A efetivao dessa tarefa foi bastante 
24 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
difcil, pois foi acontecendo num fluxo contnuo que, muitas vezes, deu-me a impresso de que jamais 
conseguiria conclu-la. Quando estava enunciando minhas idias, freqentemente parecia-me que elas iam 
adiante de meu raciocnio, dando-me um vigoroso mpeto de persegui-las e agarr-las num caminho que 
jamais teria fim. E a cada releitura de partes que eu j havia considerado como prontas, sentia, e ainda sinto, 
que poderia ampli-las ou modific-las. 
Por todos esses motivos, eu no pretendo que as enunciaes aqui reunidas e articuladas sejam tomadas 
como algo pronto ou finalizado e sim, apenas, como a estao  qual cheguei, depois de uma longa 
viagem, na qual estou, ainda, prosseguindo. Meu intuito  de que as enunciaes que aqui apresento no 
sejam consideradas como definitivas, mas como ponto de partida para novos envolvimentos e reflexes a 
respeito desse tema to amplo e profundo que  a existncia do ser humano, aqui abordada sob a perspectiva 
psicolgica da sua personalidade. 
2. Passos seguidos na elaborao do enfo que 
Considero importante, ainda, fornecer esclarecimentos sobre o modo como procedi, a partir do momento em 
que tomei a deciso de elaborar um enfoque fenomenolgico da personalidade, aps numerosos anos de 
experincias, estudos e reflexes. Essa rdua tarefa ocorreu por meio dos seguintes passos: 
1.0 Passo  Retomei as obras de filsofos, psiquiatras e psiclogos fenomenlogos cujas 
enunciaes haviam me impressionado e delas fiz cuidadosa reviso a fim de selecionar aquelas que julguei 
serem pertinentes para um levantamento de caractersticas bsicas da personalidade humana. 
2 Passo  Procurei articular, entre si, os enunciados acima referidos e explicit-los de acordo como texto de 
seus autores e o modo como os fui compreendendo, revendo-os e, paralelamente, relacionando-os  minha 
vivncia e  de outras pessoas, tentando verificar os aspectos invariveis desta e as suas variaes na 
concretude de nosso existir. 
3 Passo  Com subsdios obtidos na etapa anterior, fui chegando, por meio dos aspectos 
invariveis, ao levantamento de caractersticas bsicas da personalidade, as quais fui 
enunciando e retornando s etapas anteriores, sempre que percebi ser isto necessrio, 
at chegar a uma enunciao final das referidas caractersticas. Logo aps a 
enunciao de cada caracterstica, procurei enunciar, tambm, as variaes desta na 
concretude da vivncia das pessoas. 
No primeiro passo, houve a preponderncia de estudos e reflexes; nos dois seguintes ocorreu um processo 
inter-relacionado de envolvimento, vivncia e intuio ou de distanciamento, reflexo e enunciao de idias, 
com predomnio ora de uma, ora de outra dessas duas maneiras de atuar. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 25 
Embora tenha apresentado, separadamente, cada um dos passos seguintes,para facilitar a sua 
descrio, julgo importante ressaltar que eles foram ocorrendo de forma inter- relacionada, com 
avanos e retrocessos, que tiveram por objetivo chegar ao melhor esclarecimento que me fosse 
possvel alcanar, tanto das enunciaes dos autores nos quais fundamentei o enfoque, como de 
minhas prprias. 
Resumidamente, em outras palavras, atravs dos passos inter-relacionados acima referidos, 
cheguei  descrio de caractersticas bsicas do existir humano. Para cada uma delas apresentei 
os seus fundamentos fenomenolgicos sob prisma filosfico, procurando mostrar o aparecimento 
das mesmas na vivncia cotidiana. Este foi o recurso do qual me utilizei para passar do plano 
filosfico para o psicolgico; no filosfico dei destaque aos aspectos invariveis da existncia, no 
psicolgico enfatizei algumas variaes que tais aspectos podem apresentar ao se manifestarem 
na concretude do existir. 
3. Paradoxos e aparentes enganos 
Ao tratar das variaes referidas no pargrafo anterior, deixo transparecer o quanto as 
caractersticas bsicas do existir costumam manifestar-se de modo paradoxal na vivncia 
cotidiana. Posso, assim, dar a impresso de que estou sendo contraditria em meu 
empreendimento. Afinal, estou recorrendo a um mtodo inspirado na Fenomenologia e, portanto, 
estou pretendendo ter um rigor que me permita chegar a enunciaes coerentemente articuladas e 
acabo chegando, tambm, a vrias ambigidades. Acontece que estas fazem parte da concretude 
do prprio existir humano; por isso, para me manter fiel a ele, procurei ater-me a um rigor e uma 
coerncia que, de certo modo, so paradoxais. 
Outro ponto que merece esclarecimento refere-se ao estilo que adoto ao escrever este trabalho, 
pois, embora o tenha redigido, predominantemente, na i a pessoa do singular, em alguns 
momentos incluo o leitor no meu discurso, utilizando-me do ns, para tentar chegar perto do 
leitor e lev-lo a participar da vivncia de situaes que so prprias no apenas de minha vida, 
mas da existncia que ambos partilhamos como seres humanos semelhantes. 
II - Fenomenlogos Cujas Idias Fundamentaram 
o Enfoque 
Alm de Husserl, contriburam para o entendimento que tive da Fenomenologia os 
filsofos Merleau-Ponty, Heidegger e Buber, de modo marcante, e Sartre de modo menos 
evidente. 
Em Merleau-Ponty (1971, 1973), encontrei,de modo mais explcito do que em Husserl, 
as aproximaes entre a Fenomenologia e a Psicologia, tais como as que ele procura efetivar 
26 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
analisando fenomenologicamente o psiquismo humano, em sua manifestao fundamental: 
a percepo (1971). 
Na Fenomenologia do ser-a (Dasein), apresentada por Heidegger (1971), encontrei 
a fundamentao para o estabelecimento das dimenses primordiais do existir: a preocupao 
e a angstia, o compreender, o temporalizar e o espacializar. As consideraes que ele 
tece sobre a relatividade do conhecimento (1979) tambm exerceram influncia marcante em 
minhas reflexes. 
Alm destes filsofos, fiquei muito impressionada com Buber, que, embora no faa referncias a 
Husserl, seu contemporneo, faz uma excelente Fenomenologia das relaes humanas, em sua 
renomada obra Eu e Tu (1977), publicada pela primeira vez em 1922. Nele visualizei a 
possibilidade do encontro, ou da sintonia completa entre os seres humanos, de certo modo, no 
admitida ou, pelo menos, no claramente explicitada por Heidegger (1971 a). 
Sartre (1970, 1972) fortaleceu minha preocupao com a questo da liberdade do ser 
humano, levando-me a incluir o escolher, entre as suas caractersticas bsicas. 
Entretanto, minha motivao para estudar Fenomenologia no surgiu a partir dos filsofos, mas de 
psiquiatras fenomenlogos. Entre estes, destacam-se Binswanger (1963) e Boss (1963), bem no 
incio, Berg, van den (1973) e Minkowski (1970), posteriormente. Foram eles que me levaram  
leitura da Fenomenologia em seu campo de origem  a Filosofia  na tentativa de compreender e 
aprofundar as suas idias sobre o existir humano e o modo como empregam o mtodo 
fenomenolgico. 
Reconheo que o pensamento dos fenomenlogos que tenho estudado e com os quais tenho me 
envolvido, fornecendo-me os fundamentos para a elaborao de um enfoque da personalidade, 
embora apresente algumas idias conciliveis ou coincidentes, contm, tambm, vrias 
divergncias das quais, propositadamente, no tratei. Meu intuito no foi o de fazer uma 
comparao entre esses autores e sim, apenas, o de reunir as suas idias naquilo que tm de 
concilivel, de acordo com o modo como consegui compreend-las, vivific-las e interpret-las. 
III - Apresentao do Enfoque: Caractersticas Bsicas do Existir 
O termo personalidade  aqui tomado como o conjunto de caractersticas do existir humano, 
consideradas e descritas de acordo com o modo como so percebidas e compreendidas, pela 
pessoa, no decorrer da vivncia cotidiana imediata e tendo como fundamento os seus aspectos 
fenomenolgicos primordiais. Tais caractersticas constituem uma totalidade; a sua organizao 
em itens separados tem, apenas, o intuito de descrev-las de modo minucioso, para facilitar a sua 
compreenso. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 27 
1. Ser-no-mundo 
O homem, atravs dos tempos, tem-se esforado sobremaneira, com o intuito de elaborar a cincia, 
que pode ser definida como um conjunto de proposies verdadeiras conectadas por relaes 
fundamentais. Entretanto, a investigao cientfica no  o seu nico modo possvel de ser e nem 
o mais imediato, pois, ao ser humano  essencialmente inerente ser-no-mundo (Heidegger, 197la, 
pp. 21 e 23). 
Quando de manh cedo um fisico sai de casa para ir pesquisar no laboratrio o efeito de 
Compton e sente brilhar nos olhos os raios de sol, a luz no lhe fala em primeiro lugar, como 
fenmeno, de uma mecnica quntica ondulatria... A luz fala, sobretudo, de um mundo em 
que ele nasce e cresce, ama e odeia, vive e morre, a todo instante. Sem esse mundo 
originrio, o fsico no poderia empreender suas pesquisas, pois no lhe seria possvel nem 
mesmo existir... Nem o sol est somente fora de ns, nem luz est exclusivamente dentro de 
ns, porque sempre e necessariamente realizamos nossa existncia na estrutura ser-no-
mundo (Leo, em Heidegger, l988,p. 19). 
Encontramo-nos, em cada momento da vida, em nossa experincia cotidiana, tendo com ela uma 
familiaridade imediata e pr-reflexiva que no provm daquilo que a cincia nos ensina.  a partir e 
dentro dessa vivncia diria que desenvolvemos todas as nossas atividades, inclusive as cientficas, e 
que determinamos nossos objetivos e ideais. A experincia cotidiana imediata  o cenrio dentro do 
qual decorre a nossa vida; ser-no-mundo  a sua estrutura fundamental. 
Mas ser-no-mundo no quer dizer que o homem se acha no meio da natureza, ao 
lado de rvores, animais e outros homens... E uma estrutura de realizao... O 
homem est sempre superando os limites entre o dentro e o fora. (Idem, p. 20.) 
Nos acontecimentos da vida diria podemos evidenciar o quanto estamos implicados no mundo, pela 
aflio que sentimos quando, por exemplo, simplesmente escorregamos e camos; ficamos 
desapontados e confusos, pois, ao perder o cho no qual nos apoiamos, sentimo-nos, por instantes, 
como se perdssemos o prprio mundo e, simultaneamente, a ns mesmos. Isto pode acontecer, 
tambm, quando seguimos por uma estrada pouco conhecida e, de repente, ficamos sem saber onde 
nos encontramos. Para sabermos quem somos precisamos, de certo modo, saber onde estamos, pois, 
a identidade de cada um de ns est implicada nos acontecimentos que vivenciamos no mundo. 
Nosso elo de ligao pode no ser um lugar, mas uma pessoa a quem muito amamos; 
a sua perda, devida ao drama de sua morte, ou, simplesmente,  falta de sua compreenso e 
28 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
da correspondncia ao afeto que lhe dedicamos, pode nos deixar perpiexos e aflitos, sem 
sabermos, por instantes, se somos a pessoa que imaginvamos ser. 
Precisamos do mundo para sabermos onde estamos... e quem somos. Nas aflies decorrentes de 
nossas momentneas dvidas a esse respeito, respiramos fundo para alivi-las, procurando, 
intuitivamente, encontrar no ar que penetra em nossas narinas um alento para nos reanimar e nos 
esclarecer; podemos, tambm, acender um cigarro, coloc-lo entre os lbios e absorver a sua 
fumaa; ou tomar alguns goles de uma bebida qualquer. Estas aes to simples e espontneas so 
tentativas para recuperar o nosso inerente ser-no-mundo, pois, a essncia do homem est em se ser 
relativamente a algo ou algum (Heidegger, 1971 a, p. 54). 
O primordial ser-no-mundo do homem no  uma abstrao, mas uma ocorrncia concreta; 
acontece e se realiza, apenas, nas mltiplas formas peculiares do comportamento humano e 
nas diferentes maneiras dele relacionar-se s coisas e s pessoas. Ser no  uma estrutura 
ontolgica existindo em algum supermundo que se manifesta uma vez ou outra na existncia 
humana. Ser-no-mundo consiste na maneira nica e exclusiva do homem existir, se comportar 
e se relacionar s coisas e s pessoas que encontra... (Boss, 1963, p. 34). 
Sempre que penso ou sinto, isto acontece em relao a algo ou a algum, concretamente presente, 
ou apenas lembrado ou imaginado. Por outro lado, o mundo no  apenas um conjunto de objetos ou 
pessoas, existindo por si mesmos, pois cada um deles se toma um determinado objeto ou pessoa em 
virtude de ter um significado para quem o percebe. As coisas no podem ser sem o homem e o 
homem no pode ser sem as coisas que encontra. (Idem, p. 41). 
A idia fundamental de meu pensamento  precisamente que a evidncia do ser precisa do 
homem e que, vice-versa, o homem s  homem na medida em que est dentro da evidncia do 
ser (Heidegger, 1974, p. 25, em entrevista com Weiss.) 
Ser e mundo, sujeito e objeto, no so dois absolutos essencialmente independentes, 
mas comparveis a dois plos, necessariamente ligados em relao recproca de cognoscibilidade. 
(Acker, van, em Berg, van den, 1973, p. 5.) 
Ser-no-mundo  uma estrutura originria e sempre total, no podendo ser decomposta em elementos 
isolados. Entretanto, tal estrutura primordial pode ser visualizada e descrita em seus vrios 
momentos constitutivos, mantendo a sua unidade.  desse modo que podemos considerar os vrios 
aspectos do mundo e as diferentes maneiras do homem existir no mundo. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 29 
1.1. Aspectos do mundo: circundante, humano, prprio 
Mundo  o conjunto de relaes significativas dentro do qual a pessoa existe; embora 
seja vivenciado como um totalidade, apresenta-se ao homem sob trs aspectos simultneos, 
porm, diferentes: o circundante, o humano e o prprio. (Binswanger, 1967.) 
O mundo circundante consiste no relacionamento da pessoa com o que costumamos denominar 
de ambiente. Abarca tudo aquilo que se encontra concretamente presente nas situaes vividas pela 
pessoa, em seu contato com o mundo. Abrange as coisas, as plantas e os animais, as leis da 
natureza e seus ciclos, como o dia e a noite, as estaes do ano, o calor e o frio, o bom tempo e as 
intempries. Dele faz parte, tambm, o nosso corpo, suas necessidades e atividades, tais como o 
alimentar-se e o defecar, a viglia e o sono, a atuao e o repouso, o viver e o morrer. 
O mundo circundante caracteriza-se pelo determinismo e por isso a adaptao  o modo mais 
apropriado do homem relacionar-se a ele. Assim, por exemplo, eu preciso adaptar- me ao clima frio 
ou quente, necessito ajustar-me s minhas necessidades de comer e de dormir, pois nada posso 
fazer para modificar o prprio clima e as minhas necessidades biolgicas. 
Portanto, do mundo circundante fazem parte as condies externas e o meu prprio corpo e  este 
que me proporciona os primeiros contatos com aquelas. So minhas sensaes que me propiciam 
ver, ouvir, cheirar tocar e degustar as coisas que me cercam percebendo- as com alguma 
significao. Mas isto acontece numa vivncia global onde no distingo, de imediato, cada um de 
meus sentidos, bem como estes e as coisas com as quais me relaciono; eu simplesmente percebo 
coisas que tm um sentido para mim. 
Na vivncia imediata irreflexiva nada subsiste do fato de que necessito de olhos para ver.., 
simplesmente aparecem-me coisas que esto a... (Berg, van den, 1972, p. 126.) 
e tm significao para mim, no apenas por aquilo que so em si mesmas, mas pela relao 
que estabeleo com elas. 
O corpo tem um poder de sntese; ele unifica as sensaes e percepes de si, bem como as que se 
referem ao mundo; o corpo  simultaneamente unificado e unificador na sua 
constante e simultnea relao consigo e com o mundo. 
Na vivncia pr-reflexiva imediata o ser humano desconhece seu corpo como tal; ou, em outras 
palavras, este encontra-se englobado na totalidade do existir. E no h manifestao do existir que 
no seja, de certo modo, corporal, pois no so apenas as sensaes, nas quais temos uma 
percepo direta de objetos, que so vividas corporalmente. Mesmo quando imaginamos ou 
lembramos de algo, ou de algum, estes aparecem com um colorido, uma forma, ou um perfume, um 
gosto, uma contextura. E at quando estamos engajados num pensamento racional e abstrato, o que 
visualizamos ainda mantm alguma relao com o que vimos e sentimos. 
30 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
Nosso prprio corpo est no mundo como o corao no organismo: ele mantm 
continuamente em vida o espetculo visvel, ele o anima e o nutre interiormente, forma com 
ele um sistema. (Merleau-Ponty, 1971, p. 210.) 
Embora possam existir semelhanas entre meu corpo e os objetos naturais inanimados, h entre eles 
diferenas essenciais; entre estas encontram-se os seus limites. Nos objetos os limites encontram-se 
bem delineados e determinados, enquanto meu prprio corpo no se restringe aos limites de minha 
pele, mas se expande muito alm desta. Isso acontece no apenas pelas relaes que estabeleo 
concretamente com o ambiente que me cerca, mas, tambm, por aquelas das quais me recordo ou 
imagino que eu possa vir a estabelecer. 
Nosso corpo no  uma estrutura existindo por si mesma; e estende-se muito alm de nossas 
sensaes do momento, pois no encontramo-nos, apenas, fisicamente localizados num determinado 
lugar, mas, expandimo-nos em nosso existir no mundo; um mundo que  constitudo no apenas de 
sensaes, mas de significaes. Os limites da minha capacidade coincidem com os limites de minha 
abertura ao mundo; eles so idnticos em cada momento, mas, esto sempre mudando de acordo 
com minhas novas experincias e a amplitude ou restrio com as quais eu as vivencio. 
O mundo circundante abrange os condicionamentos aos quais estamos sujeitos, sendo, de certo 
modo, por eles determinados, por vivermos concretamente num ambiente, e pela limitao 
decorrente de nossa corporeidade, e nossa animalidade. Porm, no nos encontramos 
completamente determinados, como acontece com os animais. Na vida destes o mundo circundante 
consiste num crculo funcional, ou numa interao circular que se estabelece entre as sensaes e 
as aes. O ser humano, ao contrrio, embora em sua vida sofra limitaes de seu ambiente e de 
sua corporeidade, e necessite adaptar-se a eles, possui a capacidade de transcend-los por meio da 
conscincia que tem das situaes que vivencia (Binswanger, 1967, p. 241.) O homem no est em 
seu mundo circundante como um objeto dentro de uma caixa ou um animal preso numa jaula, pois 
no est, simplesmente, num ambiente; ele mora ou habita no mundo, que para ele se abre com 
muitas possibilidades, no apenas por poder se locomover de um lado para outro, mas, tambm, em 
virtude da conscincia que possui das situaes que j vivenciou, est vivenciando e ainda poder 
vivenciar. 
Portanto, h um movimento dialtico entre o ser humano e o mundo circundante; o homem precisa, 
essencialmente, adaptar-se ao mundo circundante, mas est sempre tentando e, de certo modo, 
chega a conseguir exercer alguma ao sobre a natureza e o seu prprio corpo. Assim, ele exerce 
algum controle sobre seus instintos, e domestica animais, cultiva plantas, nivela planaltos, represa 
guas, elabora objetos que lhe servem de utenslios; usa, e s vezes at abusa da natureza, com o 
intuito de viver melhor. 
Porm, a ao e controle sobre o mundo circundante que o homem consegue obter 
acontece de uma forma temporria e relativa, pois, tanto a natureza como o seu prprio corpo 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 31 
mantm um certo poder de se impor ao homem. Isto pode ser verificado na manuteno que eles 
manifestam de suas qualidades materiais e biolgicas bsicas, e, tambm, nos dramticos 
acontecimentos da natureza como os terremotos, os tufes, e na prpria morte, contra a qual o 
homem nada pode fazer. 
O mundo humano  aquele que diz respeito ao encontro e convivncia da pessoa com os seus 
semelhantes. 
A relao do homem com outros seres humanos  fundamental em sua existncia; desde 
o nascimento ele encontra-se em situaes que incluem a presena de algum. 
O existir  originariamente ser-com o outro, embora o compartilhar humano nem sempre seja 
vivenciado de fato. 
Mesmo o estars  ser-com, no mundo. Somente num ser-come paraum ser-com 
 que o outro pode faltar. O estar s  um modo deficiente de ser-com. (Heidegger, 
1988, p. 172.) 
Os seres humanos fazem parte da existncia do homem, mas no so como os animais, 
coisas e instrumentos que a ele se apresentam, pois 
So e esto no mundo em que vm ao encontro, segundo o modo de ser-no-mundo... 
O mundo  sempre um mundo compartilhado com os outros. (Idem, pp. 169 e 170.) 
Temos a capacidade de nos compreendermos mtua e imediatamente, por sermos 
fundamentalmente semelhantes, embora na concretude de nosso existir cada um apresente 
algumas peculiaridades em seu perceber e compreender as situaes. 
Diferentemente do relacionamento com o mundo circundante, no qual o ser humano costuma 
utilizar-se dos objetos ou adaptar-se  materialidade do ambiente sem deles receber uma resposta, 
no encontro com seu semelhante ocorre uma relao de reciprocidade, na qual ambos influenciam-
se mutuamente. Os seres humanos possuem potencialidades que lhe so prprias e os distinguem 
das coisas e dos animais, em virtude de compreenderem as situaes que vivenciam, tendo 
conscincia de si e do mundo. E como nossa existncia consiste em ser- no-mundo, s atualizamos 
tais potencialidades, peculiarmente humanas  como o amor, a liberdade e a responsabilidade, 
quando nos encontramos e entramos em relao com outras pessoas. E assim que atualizamos e, a 
partir da, compreendemos e desenvolvemos tais potencialidades. 
S posso saber quem sou como ser humano, convivendo com meus semelhantes. 
Podem acontecer, e acontecem entre os seres humanos, situaes nas quais um deles procure 
dominar o outro, utilizando-se dele para atender s suas necessidades. Uma pessoa pode, tambm, 
deixar-se submeter  outra, ou s normas e regras de seu grupo social, simplesmente, para no 
assumir a responsabilidade de suas prprias decises. Nestes casos, 
32 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
estaria ocorrendo, entre elas, relacionamentos semelhantes aos do mundo circundante, que 
no lhes propiciaria a atualizao de suas potencialidades peculiarmente humanas. 
A relao e a comunicao entre as pessoas  propiciada, inicialmente, atravs de seu prprio 
corpo; a princpio percebemo-nos e comunicamo-nos mutuamente por meio de contatos e 
expresses corporais, gestos e atitudes. Alm dessas formas de comunicao temos a capacidade 
de nos comunicar, tambm, pela linguagem; esta  peculiar aos seres humanos. Mas, o fundamento 
da linguagem e de todas as formas de comunicao entre os seres humanos , originariamente, o 
seu ser-com, ou, em outras palavras, a sua caracterstica essencial de sempre existir em relao a 
algo e a algum. 
O mundo prprio consiste na relao que o indivduo estabelece consigo, ou, em outras palavras, 
no seu ser-si-mesmo, na conscincia de si e no autoconhecimento. Mas o si- mesmo no consiste 
num ensimesmamento, pois o homem  um ser-no-mundo, ou seja, sempre  uma pessoa com 
caractersticas prprias, em relao a algo ou a algum. So as situaes que a pessoa vai vivendo, 
relacionando-se com o mundo circundante e com as pessoas, que lhe vo possibilitando atualizar as 
suas potencialidades, oferecendo-lhe as condies necessrias para ir descobrindo e reconhecendo 
quem . 
Por outro lado,  medida que vou descobrindo quem sou, este autoconhecimento ou 
conscincia-de-mim, tambm me vai propiciando uma perspectiva, ou um modo peculiar de 
visualizar as situaes que vivencio no mundo. 
As minhas aes propiciam tanto o meu autoconhecimento como o do mundo que me cerca; todavia, 
a pessoa que eu sou no se reduz ao conjunto das aes que j realizei, ou das coisas que j fiz, 
pois no sou algo esttico, mas, estou constantemente existindo, num fluxo contnuo, em direo ao 
que pretendo ser. Meus atributos, minhas qualidades no se limitam aquilo que j fiz; embora meu 
passado fomea-me elementos importantes para me conhecer, no fixa o meu modo de ser, pois 
posso me modificar, compensando muitos dos meus erros, como posso aperfeioar as minhas 
virtudes; assim sendo, tanto posso manter antigos projetos, como posso modificar o decorrer de 
minha vida. A pessoa que eu sou abrange tanto quem eu j fui, como quem eu estou sendo e quem 
pretendo ser em minha existncia no mundo. 
No mundo prprio a pessoa percebe-se, ao mesmo tempo, como sujeito e objeto; ela d-se conta 
de si mesma como um ser existente no mundo, colocando-se tanto na situao concreta do momento 
como, tambm, vislumbrando a variedade de suas possibilidades. Assim sendo, a conscincia de si e 
o autoconhecimento implicam a autotranscendncia; esta  a capacidade do ser humano transcender 
a situao imediata, ou, em outras palavras, a capacidade de ultrapassar o momento concretamente 
presente, o aqui e agora, o espao e o tempo objetivos. Pela autotranscendncia a pessoa traz o 
passado e o futuro para o instante atual de sua existncia e se reconhece como sujeito responsvel 
por suas decises e seus atos. E essa capacidade que constitui a base da liberdade humana, pois, 
permite ao ser humano tanto voltar-se para o passado como, ao mesmo tempo, lanar-se no futuro 
para refletir e avaliar seus prprios recursos e as possibilidades que possui para enfrentar, no 
apenas a situao 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 33 
imediata, mas, para ir, imaginativamente, muito alm dela. O homem dispe em sua existncia de 
uma ampla gama de possibilidades para escolher suas relaes com o mundo; o ser-si-mesmo  esta 
possibilidade de se perceber, abrindo caminho entre essas inmeras e variadas possibilidades. 
O mundo prprio caracteriza-se pela significao que as experincias tm para a 
pessoa, e pelo conhecimento de si e do mundo; sua funo peculiar  o pensamento. O 
pensamento considerado de um modo amplo que abrange todas as funes mentais como o 
entendimento, o raciocnio, a memria, a imaginao, a reflexo, a intuio e a linguagem. 
Linguagem e pensamento encontram-se essencialmente ligados. 
Desde a simples palavra falada ou escrita com algum sentido, at o discurso propriamente 
dito, a questo da linguagem e do pensamento encontra-se fundamentada num fenmeno 
global, que, segundo Husserl, queremos denominar de expresso viva ou significativa. 
(Binswanger, 1973, p. 462.) 
Na expresso viva podemos distinguir: os signos fnicos ou escritos, as experincias psquicas e a 
significao. Ela contm: nos signos, a representao objetiva de coisas, objetos, animais e pessoas 
do mundo, estabelecida igualmente pelos indivduos, no idioma do qual se utilizam; nas experincias 
psquicas e na significao, est contido algo que  peculiar  pessoa que vivenda uma situao, de 
acordo com sua prpria existncia. 
A denominao lingstica e a doao de sentido  que constituem a maravilha da 
linguagem... Por trs de cada palavra, falada ou escrita, encontra-se como autora a pessoa 
vivente. (Idem, pp. 464 e 492.) 
 na linguagem que os entes tomam-se representados nos signos, adquirem significao 
e se tomam comunicveis. 
A linguagem ocorre sempre como dilogo; dilogo da pessoa com outras ou consigo 
mesma, como acontece na reflexo. Linguagem e pensamento encontram-se implicados no 
dilogo; nele expressam e obtm resposta, num fenmeno unitrio. 
Platoj dizia que pensar  conversar com um tema, penetrando-o; o dilogo da alma 
consigo mesma... Pensar  uma fala que a alma realiza sobre o que quer investigar.., O 
pensamento se dispe, por sua prpria essncia, a poder dialogar com os outros... O 
monlogo j  uma frrma de dilogo. (idem, p. 503.) 
Falar s  um falar no pleno sentido da palavra, quando eu mesma entendo aquilo de que 
estou falando e sobre o que quero ser ouvida, compreendida e confirmada, ou contestada 
verbalmente, por outra pessoa, ou mental e silenciosamente por mim mesma. 
34 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
O fenmeno pleno de pensar  a mesma coisa que falar. (Idem, p. 504), 
Ao refletir sobre algo, dialogo comigo mesma acerca de conceitos, idias e significaes, procurando 
relacion-los e compreend-los. Entretanto, 
pensar significa algo completamente diferente de representar-se algo; no consiste apenas 
em resumir caractersticas em um conceito e relacion-las, mas quer dizer. decidir-se a emitir 
juzos, dirigir o raciocnio de um modo metdico e resolv-los em dilogo. (Idem, p. 508.) 
Nisto consiste o pensamento discursivo, mas o ser humano dispe, tambm, do pensamento intuitivo, 
que consiste numa forma de voltar atrs, ou de voltar a transformar o raciocnio em sentimentos e 
vivncia, captando-os numa totalidade. A pessoa, entretanto, costuma, inicialmente, intuir a vivncia 
para depois refletir sobre ela. 
Mas, s posso intuir o que me salta  vista e me envolve, aquece-me sentimental- mente... 
Esta rea de estar profundamente impressionado e interessado, toda esta zona da existncia 
sem palavras  imensamente mais rica e viva do que o domnio das palavras e do 
entendimento. (Idem, p. 511.) 
Posso comunicar-me comigo e com meus semelhantes tanto pelo pensamento e linguagem 
discursivos, como de forma intuitiva, por meio do olhar, de gestos, de atitudes e sentimentos 
experienciados e manifestados de forma global, na prpria vivncia imediata pr-reflexiva. 
H uma relao essencial entre linguagem e pensamento; ambos expressam a vivncia, 
ou a vida, conforme  vivida. Entretanto, 
A vida  e continuar sendo um mistrio.., podemos apenas viv-la em sua total plenitude, 
mas no conseguimos capt-la completamente deforma racional. (Idem, p. 491.) 
Por isso, para compreender a expresso viva de uma pessoa  necessrio tentar captar, 
intuitivamente, a sua vida, conforme  por ela prpria vivida; ou, em outras palavras,  preciso 
procurar penetrar no existir da pessoa, para descobrir, alm das palavras e dos gestos, o sentido que 
se encontra contido na sua comunicao. 
A existncia humana deve ser compreendida levando em conta os trs aspectos simultneos do 
mundo: o circundante, que requer adaptao e ajustamento; o humano, que se concretiza na 
relao ou nas influncias recprocas entre as pessoas; o prprio, que se caracteriza pelo 
pensamento e transcendncia da situao imediata. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 35 
1.2. Maneiras de existir: preocupada, sintonizada, racional 
A vivncia cotidiana imediata  o modo primordial de existirmos; nela temos, global e 
intuitivamente, um sentimento e uma compreenso pr-reflexivos de nosso existir no mundo. 
Em cada disposio afetiva, quando nos sentimos de uma maneira ou de outra, nosso existir 
se nos faz patente. De modo que compreendemos o ser, por mais que nos falte o seu 
conceito. (Heidegger, 1986, p. 191.) 
No se trata de um conhecimento racional acompanhado de emoo, nem apenas de um estado 
interior ou de uma reao a algo, mas de um experienciar imediato e global que abrange, numa 
totalidade, a mim e s situaes, ou s minhas lembranas, aes e expectativas, antes que estas 
venham a ser elaboradas racionalmente. 
O ser humano  um ente ontologicamente privilegiadoporque em seu existir est em jogo o 
seu prprio ser,... Ele compreende a si mesmo a partir de sua existncia. (Heidegger, l971a, 
pp. 21 e 22.) 
Na vida cotidiana imediata no compreendo os objetos como se existissem em si 
mesmos, independentemente de mim, assim como no me compreendo como um sujeito 
independente do mundo. 
A existncia humana est, desde o comeo, a fora junto dos entes do mundo, de tal modo 
que nenhum mundo interior, subjetivo, pode ser demonstrado... Ela existe sempre com eles, 
em relaes definidas pelos significados percebidos nesses entes. (Boss, 1979, pp. 183, 184,) 
Como nos esclarece Berg, van den (1973), vemos as coisas dentro de seu contexto e em 
conexo com nossa prpria pessoa. 
Poderamos dizer que vemos o significado que as coisas tm para ns. Se no vemos 
o significado, no vemos coisa alguma. (p. 39.) 
Assim, por exemplo, uma frondosa paineira  percebida de modo peculiar, ao ser contemplada por 
um ambicioso madeireiro, ou por uma jovem romntica; esta a visualiza como um acolhedor abrigo 
para o amor, enquanto aquele a v como um valioso objeto para ser cortado e vendido por um timo 
preo. Cada um deles encontra na paineira qualidades diversas, ou, em outras palavras, significados 
diferentes, relacionados ao seu modo peculiar de ser; cada um deles tem a sua prpria compreenso 
da paineira. 
36 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
Compreenso e sentimento encontram-se englobados em nossa vivncia cotidiana imediata. Se nos 
detivermos para analisar o sentimento contido na compreenso, verificaremos que ele se apresenta 
sempre sob alguma forma de agrado ou desagrado, variando desde nveis muito tnues, que temos 
dificuldades em identificar, at nveis to intensos que nos arrebatam completamente. 
Uma experincia freqente com a qual nos defrontamos para analisar o nosso sentimento  aquela 
que captamos quando pretendemos responder, de fato,  pergunta que ouvimos todos os dias: Como 
vai voc?. A resposta pode ser vou mais ou menos, vou mal, ou vou bem. 
Continuamente, compreendo o meu existir com um sentimento pr-reflexivo que posso 
identificar como sendo de mal-estar, intranqilidade e preocupao, ou de bem-estar, 
tranqilidade e sintonia, em relao a mim e ao mundo que me cerca. 
A preocupao e a sintonia so maneiras bsicas de existir que se alternam continuamente, no 
decorrer da existncia. 
a) A maneira preocupada de existir 
Esta consiste em sentimento global de preocupao, que varia desde uma vaga sensao de 
intranqilidade, por termos que cuidar de algo, at uma profunda sensao de angstia, que chega a 
nos dominar por completo. Ela ocorre tanto em situaes concretamente presentes em nossa vida, 
como naquelas em que apenas nos lembramos de coisas j acontecidas, ou que temos receio de que 
venham a acontecer, podendo surgir, tambm, sem que percebamos as razes de seu aparecimento. 
A maneira preocupada de existir encontra-se presente em nossa vida cotidiana, mais 
freqentemente de forma branda e imprecisa, intensificando-se em algumas ocasies, como, por 
exemplo, quando sofremos grandes contrariedades, enfrentamos momentos de perigo, ou precisamos 
assumir decises importantes. 
Todas as manifestaes do modo preocupado de existir fundamentam-se, primordial- 
mente, no prprio ser-no-mundo do homem. 
Por ser essencialmente inerente ao existente ser-no-mundo,  seu ser relativamente ao 
mundo, em essncia, cuidar de ... cuidar de que no fracasse um empreendimento... cuidar 
que  semelhante a um temor. (Heidegger, 1971 a, pp. 69 e 70). 
O desejar, o recear, o amedrontar-se, o afligir-se fundamentam-se, no cuidado, ou preocupao por 
algo, que  inerente ao nosso existir no mundo. A raiva e a agressividade, ou a depresso que 
costumamos vivenciar quando nos sentimos frustrados e contrariados, tambm so manifestaes de 
nossa maneira preocupada de existir. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 37 
A angstia  o modo mais originrio e profundo de nosso existir preocupado. Quando estamos 
angustiados, ficamos muito aflitos, sentindo-nos impotentes para nos livrar da aflio, pois a angstia 
no tem um objeto definido em relao ao qual possamos nos envolver e agir, para superar. A 
angstia  a negao de todo objeto, ou, em outras palavras, seu nico objeto  a prpria ameaa 
cuja fonte  o nada. 
A nica ameaa que pode tornar-se temvel, e que se descobre no medo, provm de algo 
intramundano. Mas aquilo com que a angstia se angustia  o ser-no-mundo como tal... no 
 algum ente intramundano. Por isso, com ele no se pode estabelecer nenhuma conjuntura 
essencial... pois  o nada que no se revela em parte alguma... A prpria ameaa  
indeterminada, no chegando, portanto, a penetrar, como ameaa, nesse ou naquele poder 
ser concreto e de fato. (Heidegger, 1988, pp. 250 e 251.) 
Por esse motivo procuramos, freqentemente, transformar a angstia em medo, cujos 
objetos identificamos e tentamos vencer. 
Porm, tais objetos no so os responsveis pela angstia, mas a prpria situao humana como tal, 
que nos revela, intuitivamente, a certeza de nossa prpria morte; esta  o fundamento de todas as 
ameaas que tentamos objetivar no decorrer de nossa existncia. Por isso, mesmo que consigamos, 
corajosamente, vencer os objetos de nossos medos, vivenciando alguns momentos de tranqilidade, 
estaremos continuamente sujeitos ao reaparecimento da angstia. Jamais conseguiremos venc-la, 
definitivamente, pois ela  inerente  nossa prpria existncia, na qual est contida a certeza de que 
um dia morreremos. 
b) A maneira sintonizada de existir 
Embora a preocupao e a angstia sejam bsicas em nossa existncia, paradoxalmente, 
conseguimos vivenciar momentos de sintonia e tranqilidade, quando nos encontramos 
agradavelmente envolvidos em algo ou com algum. 
A manifestao mais profunda da maneira sintonizada de existir consiste numa vivncia de completa 
harmonia de nosso existir no mundo; Buber (1977) a denomina de relao Eu-Tu. Esta pode surgir 
em nosso contato com a natureza, no encontro com nossos semelhantes, assim como no nosso 
envolvimento agradvel, ao ouvir uma melodia, ler um livro ou apreciar uma obra de arte. 
A relao Eu-Tu acontece, por exemplo, quando contemplamos uma linda paisagem que nos 
comove, envolvendo-nos de forma to profunda que, de certo modo, no distinguimos se nela 
mergulhamos, ou se ela adentrou, suavemente, em nosso mais profundo ser. Isto pode ocorrer 
tambm quando ouvimos uma bonita msica, apreciando-a tanto que as notas musicais e os sons dos 
instrumentos da orquestra parecem fundir-se num todo harmonioso 
38 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
que penetra em ns, embalando-nos agradavelmente. Pode acontecer, quando nos encontramos com 
algum que compreendemos, e de quem gostamos e sentimos que nos corresponde: 
nossos olhares, nossas vozes, nossos gestos fundem-se numa totalidade e sentimo-nos como se 
fssemos uma nica pessoa. Quando lemos um texto ou contemplamos uma obra de arte, tambm 
podemos ficar profundamente envolvidos, a ponto de neles penetrar, vibrando com eles como se 
constitussemos uma unidade. Outras vezes sentimo-nos muito contentes e tranqilos, se estivermos 
conseguindo completar satisfatoriamente um empreendimento difcil, no qual estvamos 
empenhados, por ser ele de grande importncia em nossa vida; mas tambm podemos vivenciar 
profunda tranqilidade quando damos conta de pequenas coisas nas quais estamos muito envolvidos, 
Tal vivncia de completa sintonia dura apenas alguns instantes, os quais, de certo modo, no tm 
durao objetiva, pois neles se fundem, paradoxalmente, o espao e o tempo, o finito e o infinito, o 
momento concreto e a eternidade, e todas as particularidades do ser humano e do mundo (Buber, 
1974). 
Binswanger (1967), baseando-se na relao Eu-Tu, denomina de dual este modo 
plenamente sintonizado de existir, considerando que nele conseguimos, por instantes, 
transcender o nosso factual ser-no-mundo. 
Ao ser-no-mundo como ser da existncia por amor a mim mesmo, que Heidegger 
denominou de cuidado, acrescentei o ser-alm-do-mundo, como ser da existncia por 
amor a ns, que eu designei, simplesmente, com o nome de amor ,.. 
O amor, ou o modo dual de existir,  o nico que pode oferecer ptria e eternidade  
existncia... (p. 239) Ao falar de eternidade no falo de ser-no-mundo, mas de ser-no-
mundo-alm-do-mundo, isto , do modo dual de ser humano, desse ns que constitui o eu e 
o tu fundidos no amor. (pp. 374 e 375.) 
Para Binswanger, amar  um modo peculiar de existir, no qual o ser humano vivencia 
a plenitude de suas possibilidades, encontrando-se profundamente enraizado no solo de sua 
existncia, em paz consigo e com o mundo, destitudo de desejos e intenes. 
No amor e apenas neste, a pessoa  capaz de experienciar, como uma totalidade, afinitude e 
o infinito, ofato e a essncia... Nele se realiza o verdadeiro ns, no qual cada parceiro  
criador e simultaneamente ativo e passivo, masculino e feminino... Esta inconcebvel e 
inexplicvel qualidade do amor  um mistrio que se realiza no duplo milagre de amar e ser 
amado.  (Binswanger, citado por Boss, 1949, pp. 461, 462.) 
Mas, alm de acontecer algumas vezes, e apenas por alguns instantes, de forma to 
ampla e profunda, a maneira sintonizada de existir ocorre, mais freqentemente, de modo 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 39 
menos intenso, consistindo apenas num tnue e agradvel sentimento de bem-estar e 
tranqilidade. 
e) A maneira racional de existir 
Tanto a maneira sintonizada como a preocupada  das quais temos compreenso e 
sentimento pr-reflexivos, em nossa vivncia cotidiana imediata  costumam ser submetidas  
reflexo e anlise para que delas possamos ter um conhecimento racional. 
Como seres racionais, temos necessidade de analisar a nossa vivncia cotidiana imediata para 
conceitu-la e estabelecer relao entre nossas experincias, elaborando desse modo um conjunto 
de conceitos, relacionados por princpios coerentes, que nos permitam explic-las. Isto nos fornece 
elementos, de certo modo objetivos, para conhecermos o nosso existir no mundo, e elaborar uma 
teoria sobre o mesmo, que nos possa oferecer alguma segurana, tanto para explicar as situaes 
que j vivemos ou estamos vivendo, como para planejar as nossas futuras aes. 
Embora cada um de ns tenha um modo peculiar de compreender as situaes, somos todos seres 
humanos vivendo num mesmo mundo, havendo aspectos comuns em nossa existncia, que nos 
permitem convivermos e partilharmos das mesmas experincias. Em outras palavras, existe uma 
realidade concreta, palpvel, da qual todos fazemos parte, embora possamos dar-lhe um colorido 
pessoal, com nossa maneira peculiar de ser. Agimos de acordo com o nosso modo de compreender 
as situaes, mas nossas aes s sero eficientes se forem adequadas  realidade dos 
acontecimentos; por isso, temos necessidade de averiguar se os estamos percebendo e 
compreendendo adequadamente. Um exemplo bem simples  a anlise que fao, num restaurante, 
dos recipientes que contm o sal e a pimenta, se quero salgar ou apimentar a minha comida. Outro 
exemplo, menos simples,  o da situao que vivencio aflitivamente e das precaues que tomo 
quando, ao chegarem casa  noite, procuro averiguar se o vulto que estou vendo na varanda , 
realmente, de um ladro que ali se encontra agachado no canto, ou se se trata apenas de uma 
cadeira que ali ficou esquecida durante o dia. Em cada um desses casos, especialmente no segundo, 
 possvel verificar a importncia de que meu comportamento seja baseado numa percepo 
adequada da situao. 
Em momentos nos quais vivencio completa sintonia  quando, por exemplo, contemplo uma paisagem, 
ou me relaciono temamente com algum  passados os primeiros instantes de encantamento, passo a 
refletir a respeito desses momentos agradveis, e procuro analis-los para verificar no que 
consistem, como cheguei a eles e como poderei agir para mant-los ou para viv-los novamente em 
outras ocasies. 
Pode acontecer, tambm, que uma amiga me propicie a oportunidade de refletir sobre o modo como 
estou vivendo e me sentindo quando, por exemplo, percebendo que no estou bem, e querendo me 
ajudar, pergunta: Como vo indo as coisas para voc? Quantas vezes estamos insatisfeitos e, na 
correria de nossos afazeres, nem encontramos tempo para ter 
40 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
conscincia dessa insatisfao e para fazer algo no sentido de tentar melhorar as coisas, antes que 
elas piorem! Por outro lado, no  raro ocorrerem outras situaes em que tudo est correndo bem, 
mas eu estou to absorvida pela rotina que s venho a reparar nisso quando algo desagradvel 
acontece, levando-me a perceber que eu era feliz e no sabia, como dizem alguns poetas. 
Com esses exemplos no quero dizer que a nossa racionalidade se encontre adormecida nessas 
ocasies, e sim mostrar que quando as experincias agradveis ou desagradveis so pouco intensas 
costumamos concentrar a nossa ateno apenas nos afazeres cotidianos. Por outro lado, estes 
podem chegar a nos absorver de modo to intenso que nos dificultem perceber, claramente, como 
estamos vivendo e nos sentindo no decorrer de nossa existncia. 
Tal no  ocaso de uma vivncia de angstia, na qual sinto-me muito mal, sem conseguir saber por 
qu. Minha aflio  to grande que sou forada a refletir sobre a mesma, tentando encontrar os 
motivos que me levaram a esse grande sofrimento e os meios dos quais disponho para tentar super-
lo, ou, pelo menos, alivi-lo. Em outras palavras, procuro transformar a angstia em medo, pois este 
tem um objeto definido; estar com medo  estar assustado com algo, temendo que acontea alguma 
coisa palpvel, concretamente analisvel. A visualizao de um objeto definido toma possvel nosso 
envolvimento e participao na sua percepo, que so os meios de que dispomos para agir no 
sentido de aliviar o sofrimento. Assim, por exemplo, se me sinto angustiada quando estou prestes a 
me encontrar com uma pessoa que conheci recentemente e pela qual estou muito interessada, posso 
chegar  concluso de que minha aflio  decorrente do meu desejo de ser correspondida, aliado ao 
medo de no alcanar este intento. Ento, procuro verificar quais os meus melhores recursos para 
agradla e como poderei utiliz-los. Se minha aflio for anterior  prestao de um exame 
vestibular, ou de um concurso para conseguir um emprego, tento me preparar procurando adquirir os 
conhecimentos e a prtica requeridos para cada uma dessas situaes. Evidentemente, em cada um 
desses exemplos, por mais que eu me prepare, no chego a alcanar a segurana almejada, por isso, 
alm do preparo, preciso dispor de coragem para enfrentar os riscos, que sempre esto presentes 
em tudo o que planejamos. 
Tentamos transformar a angstia em medo e ir, corajosamente, de encontro aos 
objetos nos quais a ameaa se corporifica. (Tillich, 1972, p. 35.) 
Angstia, medo e coragem encontram-se intimamente relacionados.  vivenciando minhas angstias 
e analisando-as, racionalmente, a fim de transform-las em medos concretos e verificar os recursos 
dos quais disponho para poder enfrent-los, que vou tendo coragem para planejar e pr em prtica 
as minhas aes. 
Entretanto, paradoxalmente, por mais que me empenhe em encontrar a segurana e a 
tranqilidade, estas chegam a ser alcanadas apenas por alguns instantes pr-reflexivos, nos 
quais vivencio situaes de plena e profunda sintonia em meu prprio existir, e no tenho o 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONAUDADE 41 
mais leve conhecimento de suas razes.  tal maneira de existir que tambm tem possibilitado, aos 
seres humanos, os mais hericos atos de coragem, nos quais ficam to profundamente envolvidos 
que no chegam, sequer, a refletir sobre as razes e os objetivos de suas aes. 
Voltando s consideraes sobre a maneira racional de existir, verificamos que no decorrer de nossa 
vida, costumamos refletir a respeito de nossa vivncia cotidiana, analisando-a, levantando hipteses 
e chegando a algumas concluses a respeito dela e de nosso existir no mundo. Todas essas 
elaboraes racionais nos vo fornecendo elementos constitutivos de nossa teoria sobre a nossa 
prpria vida, que nos permite explic-la em seu decorrer at o momento presente, bem como 
planej-la na direo daquilo que pretendemos para o futuro. 
A maneira racional de existir , tambm, aquela que propicia a emergncia e o 
desenvolvimento das cincias. 
A racionalidade  de enorme importncia em nossa existncia, pois, alm de nos proporcionar uma 
base, de certo modo, objetiva, para explicar e planejar as nossas aes,  a responsvel pelo avano 
alcanado at os dias atuais, nas vrias reas do saber, avano que pode constituir meio para 
vivermos de modo mais satisfatrio e pleno. 
Mas, as possibilidades de nossa existncia no se reduzem  adequao entre a inteligncia e o real 
e, conseqentemente, s fronteiras do racional, pois este encontra-se fundamentado em algo anterior 
a ele, que  originrio em nossa vida: a vivncia cotidiana imediata.  ela que constitui o ponto de 
partida e o fundo sobre o qual as reflexes se realizam e, tambm, a possibilidade para que as 
elaboraes racionais  que sempre so incompletas 
 sejam continuamente revistas e ampliadas. 
As trs maneiras de existir acima descritas costumam ocorrer em nossa vivncia, continuamente 
articuladas e relacionadas, havendo apenas a predominncia maior ou menor, ora de uma, ora de 
outra. Assim sendo, as maneiras preocupada e sintonizada nas quais dei destaque, 
respectivamente, aos sentimentos desagradveis ou agradveis  podem surgir, muito prximas e 
entrelaadas, em vivncia imediata, que contm esses dois tipos de sentimentos, alternando-se to 
rapidamente que encontramos dificuldade para distingui-los. Alm disso, a maneira racional  na qual 
enfatizei a elaborao intelectual das experincias cotidianas imediatas  embora esteja voltada para 
uma anlise, de certo modo, objetiva das situaes, no deixa de conter sempre algum nvel de 
preocupao, de sintonia, ou de ambas. 
2. Temporalizar 
Temporalizar consiste em experienciar o tempo, sendo esta a vivncia que mais 
prxima se encontra de nosso prprio existir, 
to prxima que constitui a base da existncia; poderamos dizer que  sinnimo 
desta, no sentido mais amplo da palavra. (Minkowski, 1982, p. 22.) 
42 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
O fundamento bsico da existncia humana  a temporalidade; esta constitui o sentido originrio do 
existir (Heidegger, 197 la, pp. 256 e 257). 
A palavra existir deriva do latim existere, sendo formada pela preposio ex, cujo significado  
fora de e sistere, que quer dizer colocar, pr. Esses termos correspondem aos gregos ek e 
stasis, dando origem  palavra extasis, que expressa o fato de sair de si mesmo ou 
transcender. (Seguin, 1960, p. 21.) 
Portanto, existir e transcender possuem o mesmo significado que  o de lanar-se para 
fora, ultrapassar a situao imediata, que tambm quer dizer temporalizar. 
A existncia humana consiste em estar continuamente saindo de si mesma, transcendendo a 
situao imediata, em direo a algo que ainda poder ser para completar-se, ou totalizar-se. Mas, 
o seu ser total  ser em relao  morte (Heidegger, 1971a, p. 256). Por isso, o ser humano, como 
existente, nunca poder completar-se, ou totalizar-se durante a sua existncia, embora a morte seja 
a sua maior e mais profunda certeza. A morte faz parte de nossa vida, apenas no modo como nos 
relacionamos com as idias de ser ela o nosso derradeiro fim, e  apenas incluindo-a em nossas 
reflexes que teremos condies de encontrar o verdadeiro sentido de nossa existncia. 
Em nosso existir cotidiano pr-reflexivo, podemos vivenciar o tempo como um oceano grandioso e 
potente, sem comeo nem fim e cheio de mistrios. H momentos em que nos sentimos sintonizados 
e tranqilos, como se estivssemos flutuando sobre suas ondas suaves e acolhedoras, vivenciando o 
quanto  bom viver. Porm, s vezes, elas se tomam encapeladas e gigantescas e, ento, ficamos 
inseguros e angustiados, experienciando a eminncia dos enormes perigos que rondam a nossa vida, 
ameaando-a de extinguir-se completamente a qualquer instante. O tempo tambm pode, s vezes, 
parecer montono e desprovido de sentido, como se a existncia fosse uma repetio contnua de 
momentos iguais, envolvendo- nos num insuportvel tdio. 
Mas o ser humano, desde as pocas mais remotas, comeou a analisar racionalmente o decorrer do 
tempo, procurando objetivar a sua marcha, verificando as suas repeties constantes e 
considerando-as de forma semelhante ao espao. O sol surgindo e desaparecendo com intervalos 
regulares de claridade e escurido permitiram-lhe estabelecer o dia e a noite, cada um como 
momentos propcios, respectivamente,  atividade e ao repouso; passou a dividir esses intervalos em 
espaos menores, com duraes e distncias determinadas, que denominou de horas, minutos e 
segundos; alm disso, organizou os dias seqencialmente, em semanas, meses e anos, da surgindo 
os relgios e os calendrios, destinados a registrar e acompanhar o decorrer do tempo; denominou 
de presente ao momento que est acontecendo, de passado aos momentos que j ocorreram e vo-
se acumulando na existncia e, de futuro, quilo que est para acontecer, estabelecendo as trs 
dimenses do tempo. 
Entretanto, em nosso existir cotidiano imediato, vivenciamos o tempo como uma 
totalidade, que consiste num presente perene, abarcador, tanto do j acontecido como do que 
esperamos que venha a acontecer. Costumamos experienciar o nosso existir como um fluxo 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 43 
contnuo, decorrendo numa velocidade e intensidade que se alteram de acordo com a nossa 
maneira de vivenciar as situaes, que  sempre acompanhada de algum sentimento de agrado ou 
desagrado. Os instantes vivenciados com sintonia e contentamento decorrem rapidamente, enquanto 
os momentos de preocupao, contrariedade, ou tdio decorrem devagar. Tais alteraes 
acontecem apenas em nosso temporalizar, no interferindo no tempo marcado pelo relgio, pois 
neste os instantes mantm, sempre, a mesma durao. Por isso, podemos vivenciar horas como se 
fossem minutos e, inversamente, minutos como se fossem horas. Assim, por exemplo, se estou 
apaixonada por algum e manifesto-lhe o meu amor, sentindo que sou correspondida, sinto o tempo 
voar; entretanto, quando me sinto incompreendida, desprezada ou decepcionada, sinto o tempo 
decorrer muito lentamente, podendo at me parecer que ele parou de repente. 
Alm de vivenciarmos uma certa velocidade em nosso existir, vivenciamos, simultaneamente, uma 
extensibilidade, ou seja, nosso temporalizar estende-se, tanto em relao ao nosso passado como 
em direo ao futuro, com amplitude ou restrio. Assim sendo, posso vivenciar o meu existir tendo 
como fundo um passado com poucas ou muitas experincias significativas e um futuro com poucas 
ou muitas possibilidades de prosseguir a minha existncia. A vivncia de sintonia e contentamento 
expande o meu temporalizar enquanto a de preocupao e contrariedade o restringe. 
As elaboraes racionais, entretanto, possibilitaram ao homem estabelecer as dimenses do tempo e 
se deter em cada uma delas; refletir sobre a sua existncia e planej-la, procurando evitar o perigo 
de sentir-se perdido na fluidez de seu temporalizar originrio. Tais elaboraes tambm levaram o 
ser humano a descobertas e invenes que lhe permitiram ampliar o seu conforto e lhe trazer 
alguma segurana, dando-lhe a impresso de estar conseguindo controlar o tempo. Assim, por 
exemplo, o homem passou a prolongar a durao dos alimentos, conservando-os em baixas 
temperaturas, e prolongar a vida de muitas pessoas combatendo eficientemente suas doenas. A 
imprensa chegou a divulgar alguns casos de indivduos gravemente enfermos que foram congelados, 
com o objetivo de aguardarem a descoberta de tratamento que no futuro pudesse vir a possibilitar 
a sua cura. 
Porm, por mais que o ser humano procure controlar racionalmente o tempo, este continua a 
decorrer inexoravelmente, independente da vontade humana, mesmo que todos os relgios do mundo 
venham a parar e todos os calendrios deixem de existir. E por maiores que sejam as suas 
conquistas para melhorar as suas condies de vida, o ser humano jamais conseguir vencer a sua 
condio bsica de ser finito, de ter de se defrontar, algum dia, com a sua morte. 
As elaboraes racionais so signiticativamente importantes em nossa vida, pois nos fornecem 
parmetros que nos permitem, at certo ponto, explic-la e planej-la, sendo indispensveis para nos 
proporcionar alguma segurana; mas  necessrio reconhecermos que nossa existncia  constituda 
de uma abrangncia que ultrapassa, consideravelmente, tais elaboraes. Racionalizar  debruar-se 
sobre o passado, refletir sobre o que j aconteceu 
44 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
e fazer previses, sobre o que poder vir a acontecer. Existir implica, para o ser humano, em 
prosseguir em direo ao futuro, cuja abertura de possibilidades no se limita a uma projeo do 
passado; tal prosseguimento requer, tambm, correr o risco de se soltar na fluidez e imprevisibilidade 
do futuro; e este soltar-se s pode ser encontrado na vivncia imediata, prreflex iva. 
Precisamos, constantemente, alternar a nossa racionalidade com essa vivncia, para que 
possamos 
recobrar o contato com a vida e com o que ela tem de mais espontneo e originrio; voltar 
 fonte primeira da qual brota no apenas a cincia, mas todas as manifestaes da vida. 
(Minkowski, 1982, p. 9.) 
3. Espacializar 
Espacializar consiste no modo como vivenciamos o espao em nossa existncia. 
Procuramos, racionalmente, objetivar a nossa espacialidade, localizando e denominando os lugares e 
as coisas que nele se encontram, considerando que ocupam espao correspondente  sua dimenso 
e volume, com alguma distncia entre si. Esta concepo , tambm, aplicada a ns e a nossos 
semelhantes, como pessoas situadas num determinado local, num dado momento: residimos num 
certo endereo e situamos os lugares de trabalho, de lazer e outros, em nosso bairro, cidade, estado 
e pas, ou em outros pases, e elaboramos um mapeamento que nos possibilite localiz-los e nos 
fornea uma idia da extenso do mundo onde vivemos. Todas estas objetivaes fornecem-nos 
importantes recursos para nos movimentarmos nos vrios locais, e buscarmos as coisas que l esto, 
bem como para nos encontrarmos com os nossos semelhantes. 
Entretanto, o espacializar, em seu sentido mais profundo e originrio, no se limita a tais 
objetivaes, pois possui outras qualidades, que se manifestam em nossa vivncia cotidiana 
pr-reflexiva. 
Assim, diferentemente de um objeto no armrio, de uma planta no jardim ou de um cachorro no 
quintal, o ser humano, alm de se encontrar concretamente num determinado lugar, tem 
compreenso de seu prprio existir no mundo, relativa tanto ao local e instante atuais como a outros 
vividos anteriormente, e tambm queles que deseja ou receia vir a experienciar. O nosso 
espacializar no se limita ao estar aqui, pois inclui o ter estado l e o poder vir a estar acol, 
reunidos numa compreenso global. Isto significa que o nosso espacializar  passvel de tal 
expansividade que ultrapassa os limites de nosso prprio corpo e do ambiente concreto que nos 
circunda; essa expansividade pode ser mais ampla ou mais restritiva, de acordo com a compreenso 
e o modo como nos sentimos em nosso existir no mundo. Assim, podemos estar andando numa 
enorme praa e nos sentirmos como se estivssemos aprisionados numa cela; ou, mesmo estando 
fechados num cubculo, podemos 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 45 
vivenciar o nosso existir com amplitude. Tais fatos podem ser percebidos, com maior clareza, em 
situaes nas quais vivenciamos intensas alegrias ou profundos sofrimentos. O psiquiatra e 
fenomenlogo Victor Frankl (sld) apresenta exemplos de vivncias intensas deste ltimo tipo  dele e 
de seus companheiros  ocorridas em campos de concentrao, onde salvaram- se da loucura apenas 
os prisioneiros que conseguiram manter a amplitude de seu espacializar, apesar do terrvel e 
prolongado confinamento ao qual haviam sido inexoravelmente submetidos. 
Para elev-los psiquicamente, era necessrio apontar-lhes uma meta no sentido 
dofuturo;fazer tudo para lhes recordar que a vida ou algum esperava por eles. (p. 109.) 
A vivncia do espao e a do tempo relacionam-se intimamente e so experienciadas 
com amplitude ou restrio, de acordo com a visualizao de possibilidades e esperana da 
pessoa de poder realiz-las, ou a restrio de perspectivas e desnimo por no vislumbrar 
meios de concretiz-las. A abertura de possibilidades e a esperana de concretiz-las ilumina 
e amplia tanto as perspectivas futuras como as lembranas do passado, enquanto o desespero 
e o desnimo as obscurecem podendo chegar a encobri-las completamente. 
A simples lembrana de realizaes e alegrias do passado, tambm, pode iluminar e 
ampliar a vivncia opressora de uma situao de contrariadade. 
Aquilo que j vivemos, no h poder que possa nos roubar...; tudo o que realizamos de 
grande, pensamos e sofremos,  uma riqueza interna de que nada nem ningum nos pode 
privar.., e nesse passado nossa vida ficou assegurada, porque ser-passado  tambm uma 
forma de ser. (Frankl, s!d, p. 99.) 
Alm da expansividade, e a ela muito relacionada, encontra-se a capacidade do ser humano de 
vivenciar o distanciamento e a proximidade de locais, coisas e pessoas, independentemente destes 
estarem, de fato, presentes, mas, de acordo com seu modo de existir no mundo. Por isso, embora 
estando num local sem uma nica pessoa, posso sentirme acompanhada por meus amigos ausentes, 
ou sentir-me sozinha, mesmo encontrando-me entre muita gente. Tambm posso encontrar-me, de 
fato, num lugar e sentir-me distante dele e prxima de outro, que se encontra muito longe 
fisicamente, mas, ao qual sinto-me ligada naquele momento. Assim sendo, o ver, sob um prisma 
vivencial, tem um sentido amplo e, de certo modo, paradoxal, pois tanto pode referir-se ao meu 
campo perceptual atual como ao meu mundo, que abrange uma ampla gama de percepes e 
significados aqum e alm do meu ambiente fsico. Em resumo, aquilo que visualizamos 
existencialmente, como distante ou prximo, pode no ser o que est, objetivamente, a maior ou 
menor distncia de ns. 
46 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
Um caminho objetivamente longo pode ser mais curto do que um caminho objetivamente 
curto, mas que talvez seja uma difcil caminhada e, por isso se apresente como um caminho 
sem fim.,, Orientando-se exclusivamente pelas distncias, enquanto intervalos medidos, 
encobre-se a espacialidade originria do ser-em. (Heidegger, 1988, pp. 154 e 155.) 
Posso, tambm, vivenciar o espao com familiaridade ou estranheza; em outras palavras, posso 
sentir-me acolhida e  vontade no ambiente em que me encontro num dado momento, ou uma 
estranha num lugar que ignoro e no qual no sei como se situar. Tal fato pode referir-se tanto ao 
meu ambiente fsico, concretamente presente, como ao meu existir no mundo, de um modo global, 
em ocasies nas quais sinto-me sintonizada e tranqila em meu existir sem perceber quais os 
motivos, ou preocupada e angustiada, sem saber por que, e at mesmo sem querer prosseguir o 
curso de minha existncia. 
Na vivncia da decepo o homem sente-se joguete do destino,.., a dor  como um 
poo sem fundo, no qual nunca se pode atingir o absoluto. (Frankl, s/d, p. 109.) 
Binswanger(1973) afirma que o espacializar oscila de acordo com o nosso humor, em movimentos 
ascendentes e descendentes, afirmando que o eixo vertical  o eixo fundamental da existncia. O 
amor, as alegrias e as satisfaes elevam-nos em nosso existir, levando- nos a visualiz-lo com 
clareza e amplitude, tanto em relao ao significado de nossas realizaes como ao de nossas 
possibilidades, chegando at a nos dar a sensao de estarmos nas alturas do cu. O oposto se d 
com a raiva, as tristezas e contrariedades, que nos afundam obscurecendo e restringindo os 
significados, tanto de nosso existir atual e j passado, como de nossas perspectivas, chegando a nos 
levar  sensao de estarmos atolados numa fossa (pp. 363 e 369). Tal considerao da vivncia do 
espao relaciona-se tanto  extensibilidade como  proximidade e distanciamento, referidos 
anteriormente. 
Enfim, ao espacializar, no apenas nos situamos concretamente em nosso ambiente circundante, 
como, tambm, vivenciamos o nosso existir no mundo, ora com certa elevao, amplitude, 
proximidade e familiaridade, ora com algum rebaixamento, distncia e estranheza; a intensidade 
dessa vivncia varia de acordo com as oscilaes que ocorrem em nossa maneira de existir que, 
umas vezes,  mais sintonizada e integradora, outras, mais preocupada e angustiante. 
4. Escolher 
A existncia  urna abertura  percepo e compreenso de tudo o que a ela se apresenta. 
Tal abertura  a condio da liberdade humana (Boss, 1983, p. 123) pois  ela que 
proporciona a amplitude das possibilidades de escolha, no decorrer da existncia. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 47 
Apenas onde h uma multiplicidade de fenmenos, torna-se possvel a escolha e a 
deciso.... Tanto a abertura como a liberdade de escolha sofenmenosfundamentais que se 
revelam diretamente, no requerendo qualquer comprovao, Mas, como so ambos 
primordiais,  possvel, para um deles, ser a condio de manifestao do outro. (Boss, 
1983, p. 123.) 
Podemos, pois, considerar que a liberdade de escolher  tanto maior quanto mais ampla for a 
abertura do ser humano  percepo e compreenso de sua vivncia no mundo. Essa abertura 
requer, tambm, que a compreenso esteja de acordo com a realidade; a compreenso deve ser 
verdadeira para que a escolha no venha a ser apenas uma quimera, ou uma iluso. Portanto, na 
liberdade de escolha est contida, tambm, a questo da verdade. 
Tradicionalmente, a verdade tem sido considerada como a adequao do conhecimento 
 realidade, ou  coisa; isto pressupe que a essncia da verdade  a conformidade do 
conhecimento com a coisa; mas trata-se de uma conformidade entre dois elementos diferentes, um 
concretamente presente e outro que  um pensamento, uma enunciao. Tais elementos no podem 
ser igualados diretamente; a sua conformidade requer uma relao entre ambos. A apario da 
coisa, ou da realidade, acontece no seio da abertura do ser humano  compreenso de suas 
vivncias;  nessa abertura que ocorre a relao entre a coisa e a enunciao, e esta relao 
realiza-se, originariamente e a cada vez com o desencadear de um comportamento. 
Somente pela abertura que o comportamento mantm, se torna possvel a conformidade da 
enunciao... A verdade originria no tem sua morada original na proposio, mas na 
possibilidade intrnseca da abertura do comportamento.... A abertura que mantm o 
comportamento, aquilo que torna possvel a conformidade, se funda na liberdade. A essncia 
da verdade  a liberdade.., a liberdade  a prpria essncia da verdade. (Heidegger, 1979, 
pp. 136 e 137.) 
Isto significa deslocar a verdade para a subjetividade do arbtrio humano; mesmo que o indivduo 
tenha acesso  objetividade, esta permanece relativizada por sua abertura  compreenso de suas 
experincias. Entre estas encontra-se a compreenso que surge na convivncia com seus 
semelhantes, que como ele existem no mundo, tendo ambos a capacidade de se compreenderem 
mutuamente; tal convivncia lhes permite chegar a acordos intersubjetivos que podem, tambm, de 
certo modo, contribuir para diminuir a relatividade da verdade de cada um. 
Entretanto, no h uma verdade existente por si mesma, que proporcione ao ser humano nela 
fundamentar-se para efetuar as suas escolhas; existem apenas possibilidades que so confirmadas, 
ou no, em situaes particulares, nas quais ele se comporta de um ou outro modo. 
48 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
A verdade  a prpria vida que a exprime:  a vida em ato... H uma luta entre a 
existncia e o pensamento, mas a realidade pensada, e portanto abstrata, nunca 
passa de um possvel. (Kierkegaard, citado por Jolivet, 1961, pp. 35 e 41.) 
A realidade para o ser humano est originariamente fundamentada na compreenso que ele tem das 
situaes que vivencia, nela estando implcitas as trs dimenses temporais de seu existir: como ele 
tem sido (passado), como est sendo (presente) e como poder vir a ser (futuro). A realidade  
compreendida numa perspectiva historial e, assim sendo, ao escolher tenho, por suporte, um 
conhecimento que se encontra relacionado ao que j aconteceu e est acontecendo, mas, tambm,  
imprevisibilidade do que poder vir a acontecer. E mesmo chegando a acordos intersubjetivos para o 
estabelecimento da verdade, o ser humano no chega a ter a certeza de conhecer verdadeiramente 
a realidade ou de ter feito a melhor escolha, assim como no tem a garantia de conseguir concretiz-
la conforme a projetou. 
 tudo isto que confere  deciso da escolha o seu carter de liberdade e de responsabilidade, pois 
se o ser humano soubesse tudo com certeza, antes de se decidir, no estaria sendo livre, mas 
determinado pela objetividade de seus conhecimentos, que lhe indicariam uma nica escolha: a 
verdadeira, ou a mais acertada. 
Ao escolher, contamos apenas com nossa abertura  compreenso de nossa vivncia e  de nossos 
semelhantes, que nos colocam diante de possibilidades, exigindo de ns responsabilidade para 
assumir o risco da imprevisibilidade das conseqncias de nossa deciso. 
Todos ns j tivemos, em alguma ocasio, a experincia de nos arrependermos de uma escolha, por 
no nos pmpomionar aquilo que dela espervamos. Assim, tambm, j verificamos, ao executar 
nossos planos para alcanar um objetivo escolhido, o quanto eles podem ser permeados de fatos 
imprevisveis, que interferem na sua realizao, chegando at a impedila completamente. Ej temos 
tido evidncia dos riscos aos quais nos expomos ao assumirmos uma deciso... e no entanto 
precisamos fazer isto, a cada instante de nossa existncia. 
Viver  muito arriscado afirma um dito popular; por isso, como diz o filsofo Tillich 
(1972),  preciso ter-se coragem para ser, coragem para viver a nossa vida, diante de tantas 
inseguranas e dos perigos que continuamente nos ameaam. 
A prpria necessidade de ter de efetuar uma escolha entre vrias possibilidades j contm o 
fundamento de minha limitao como ser humano: indica que no posso escolher e concretizar, 
simultaneamente, todas as minhas potencialidades. Como um ser humano vivo, materializado, s 
posso, em cada momento, estar concretamente presente num nico lugar e s posso fazer uma coisa 
de cada vez; por isso cada escolha efetuada implica na renncia de um nmero enorme de 
possibilidades. Conforme as situaes, posso adiar algumas escolhas para momentos futuros, mas 
freqentemente, minhas escolhas levam-me a seguir caminhos que dificultam, e s vezes at 
impedem, a retomada de coisas que imaginara ter renunciado apenas temporariamente. H 
situaes na vida de cada um de ns nas quais a opo por uma 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 49 
coisa importante requer a renncia completa de outras igualmente relevantes; posso, ento, ficar 
indecisa por algum tempo, at ganhar coragem para me despojar de algo importante que gostaria de 
conquistar ou, simplesmente, de manter. 
Estas reflexes trouxeram-me  lembrana um antigo verso, muito simples e profundo, 
como costumam ser as coisas verdadeiramente simples, quando conseguimos compreendlas: 
No sei se vou ou se fico, 
No sei se fico ou se vou. 
Se vou, j sei que no fico. 
Se fico, j sei que no vou. 
Essas palavras resumem muito do que estou dizendo sobre a liberdade de escolher. 
Antes de escolher tenho dvidas.., s depois de fazer a escolha e de concretiz-la tenha a 
certeza do que assumi... e do que renunciei. 
O sentimento de ser livre pode ser vivido de modo amplo no momento anterior a uma deciso, 
quando se abrem diante de mim as mltiplas possibilidades de meu existir; nesse momento, de certo 
modo, posso tudo, ou, em outras palavras, tenho tudo ao meu alcance: 
posso casar-me e ficar solteira, ser psicloga e artista... e tantas outras coisas; enfim posso ir e 
ficar. Vivencio a amplitude de minha liberdade quando ainda estou diante das possibilidades; mas, 
ao assumir a deciso de uma escolha, passo para as limitaes e as exigncias da concretude da 
realidade. Entro ento, num outro nvel de minha existncia, que  o da ao. 
A ao me propicia realizar os meus projetos e para tanto preciso contar com os recursos do 
ambiente, neles investindo toda a minha capacidade; conforme vou agindo para concretizar os meus 
projetos, vou tomando contato com o mundo, desvendando-o e compreendendo-o, o mesmo 
acontecendo com os meus recursos pessoais. Ao escolher, planejar e agir, vou conhecendo o mundo 
e a mim mesma, sempre correndo o risco de pr  prova os meus projetos, realizando-os de fato, ou 
verificando que no passavam de iluses, ou de sonhos. 
 por tudo isso que, quando nos encontramos em situaes de grande abrangncia em 
nossa vida, sentimo-nos angustiados e costumamos demorar para tomar uma deciso. 
H pessoas que levam grande parte de sua vida adiando o momento de efetuar uma escolha 
importante e de agir no sentido de concretiz-la, para manterem a iluso da plenitude de sua 
liberdade, ou por se sentirem incapazes de se decidir pela renncia de algo que consideram 
imprescindvel, ou, ainda, pelo receio de verificar que seus projetos no passavam de sonhos. Essas 
pessoas no chegam nem a ir e nem a ficar; assim sendo, deixam de atualizar boa parte de suas 
possibilidades, no desenvolvendo os seus recursos pessoais e a sua compreenso e conhecimento 
de si e do mundo. H tambm, os que, de certo modo, renunciam  sua liberdade de escolha, para 
evitar assumir a sua responsabilidade, e 
50 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
acomodam-se na posio de seguir os exemplos ou as normas estabelecidas pelo grupo ou a 
sociedade aos quais pertencem. Todos ns, em alguns momentos de nossa existncia, tambm 
vivenciamos situaes como estas; so momentos nos quais estamos restringindo a concretizao de 
nossa abertura e de nossa liberdade originria, ou, em outras palavras, estamos sendo inautnticos. 
Todas as consideraes que teci a respeito da necessidade que temos de fazer escolhas, e agir no 
sentido de concretiz-las, no tm o intuito de reduzir a existncia apenas ao nvel da ao, pois o 
ser humano no se encontra restringido quilo que faz, ou est fazendo, mas tambm tem 
possibilidades futuras, que podem vir a transformar a sua vida. A abertura para as minhas 
possibilidades e os meus projetos faz parte integrante do meu existir, propiciando- me vivenciar a 
liberdade tanto para mant-lo na mesma direo, como para mud-lo completamente. Mas, para isto, 
 necessrio que eu no me mantenha, apenas, nas conjecturas e nos projetos, mas que aja no 
sentido de concretiz-los. Sob outro aspecto, os projetos, as conjecturas e at mesmo as iluses e os 
sonhos fazem parte de nossa vida, estimulando-nos a seguirem frente e, de certo modo, 
fortalecendo-nos para enfrentar a dureza dos infortnios e as limitaes da realidade; entretanto, 
se permanecermos apenas neles, no chegaremos a dar conta da realizao de nossa prpria 
existncia. s vezes conseguimos at transformar os sonhos em realidade, o que acontece quando 
nos empenhamos nesse sentido, conseguindo encontrar as possveis relaes existentes entre 
ambos. Portanto, o sonhar, o conjecturar e o escolher, o planejar e o agir fazem parte de nossa vida, 
complementando-se mutuamente, no decorrer da mesma. 
Quando tenho coragem para enfrentar a angstia da insegurana e fao escolhas, agindo para 
concretiz-las, conseguindo faz-lo de modo satisfatrio, vivencio uma agradvel tranqilidade que 
surge como uma repousante pausa, na minha luta para dar conta de minha prpria existncia. As 
minhas realizaes ampliam a visualizao de minhas possibilidades e estas estimulam-me para 
novas escolhas que procuro concretizar, e assim prossigo o curso de minha existncia. 
Pode, tambm, acontecer que eu fracasse em meus empreendimentos, e me sinta confusa, frustrada 
e desanimada; e que esse fato me leve a reduzir, temporariamente, as minhas possibilidades e a 
rebaixar a confiana em minha capacidade e no prprio mundo que se mostra imprprio e 
desfavorvel  realizao de meus projetos. Nessa circunstncia, posso sentir dificuldade em achar 
um significado para essa experincia frustradora. Meu passado, ento, em lugar de ser um respaldo 
para que eu me lance em novas escolhas e novos empreendimentos, pode se tomar um pesado 
fardo, como grilhes atados aos meus ps que me dificultam prosseguir a caminhada de minha 
existncia. Quanto maior a importncia e a amplitude em minha vida, do projeto fracassado, maior 
ser a minha dificuldade para superar a situao. O ser humano, porm, normalmente, acaba 
conseguindo superar tais dificuldades e, quando isto acontece, adquire uma compreenso mais 
completa de sua existncia, passando a nela incluir no apenas a sua riqueza em possibilidades, mas, 
tambm, 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 51 
os seus limites, decorrentes tanto dele prprio, quanto do mundo e das implicaes recprocas 
entre ambos; assim sendo, ele passa a abrir-se, novamente para as suas possibilidades, j agora 
de forma mais esclarecida e amadureida (Forghieri, 1986, 1989a). 
Mas quando somos bem sucedidos em nossas escolhas e em nossos empreendimentos, sempre 
nos resta algum sentimento de culpa, decorrente de algo que ficou faltando. No caso do fracasso, 
sentimo-nos culpados por considerarmos que no fomos competentes e, no caso do sucesso, por 
percebermos que, ao fazermos uma escolha e realizarmos um projeto, fomos obrigados a 
renunciar a muitos outros, entre os quais alguns jamais podero ser retomados. A culpa  inerente 
ao prprio existir humano, pois nunca encontramos condies de realizar todas as nossas 
possibilidades. 
V - Consideraes sobre o Ser-Doente e o Ser- Saudvel 
Existencialmente 
O ser humano  um ser-no-mundo; existe sempre em relao com algo ou algum e compreende 
as suas experincias, ou seja, lhes atribui significados, dando sentido  sua existncia. Vive num 
certo espao e em determinado tempo, mas os vivencia com uma amplitude que ultrapassa estas 
dimenses objetivas, pois, consegue transcender a situao imediata; seu existir abrange no 
apenas aquilo que  e est vivendo em dado instante, mas, tambm, as mltiplas possibilidades s 
quais encontra-se aberta a sua existncia. 
Entretanto, a abertura originria s nossas possibilidades no se realiza facilmente, pois, 
defrontamo-nos com obstculos e restries no decorrer da existncia; estes fazem parte de 
nossa facticidade, que abrange a materialidade do mundo e a nossa prpria, O ambiente, o clima, 
as intempries, os acidentes, bem como o nosso organismo, os instintos, condicionamentos e 
doenas aos quais estamos sujeitos, constituem limites mundanos e pessoais  vida de todos ns. 
Acresce, ainda, que a facticidade da existncia restringe a presena concreta do indivduo, em 
determinado momento, a um nico lugar e lhe permite fazer apenas uma coisa de cada vez. Por 
isso ele no consegue realizar todas as suas possibilidades; precisa fazer escolhas entre estas e 
cada escolha implica em muitas renncias. 
A livre abertura originria do ser humano s suas mltiplas possibilidades e as restries 
a essa abertura, que surgem na concretude do existir, evidenciam o quanto a existncia 
humana  paradoxal. 
Os paradoxos fazem parte de nossa vida e se manifestam sob vrios aspectos. Assim, embora 
sendo racionais, tambm vivenciamos, pr-reflexivamente, o fluxo de nosso existir imediato, e no 
decorrer de nossas experincias podemos nos sentir, tanto tranquilos e contentes, como aflitos e 
contrariados; somos livres, mas, tambm, somos determinados por condicionamentos e 
circunstncias variados; amamos e odiamos; somos voltados para nosso 
52 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
semelhante, mas, tambm, cuidamos do nosso prprio bem; convivemos com outras pessoas, 
mas, nem por isso deixamos de nos confrontar com nossa prpria solido. 
Finalmente, somos vivos, mas, tambm mortais. Vivemos e morremos, de certo modo 
simultaneamente, pois, a cada dia que passa, nossa existncia tanto vai se ampliando quanto 
vai se tornando mais curta. No decorrer de nosso existir caminhamos, a cada dia, para viver 
mais plenamente, assim como para morrer mais proximamente. (Forghieri, 1 984a, p. 18.) 
A prpria existncia de opostos  que nos d o verdadeiro significado de cada um dos plos que, de 
certo modo, se opem, mas que em nossa vida cotidiana constituem uma totalidade. Assim, a tristeza 
adquire o seu verdadeiro sentido quando j vivenciei a alegria; a angstia ao ser confrontada com a 
tranqilidade; o cansao com o descanso; as obrigaes com o lazer; e vice-versa, tambm. Se 
consigo sentir-me verdadeiramente alegre  porque j tenho me sentido profundamente triste; se 
consigo sentir plenamente a ternura de uma convivncia amorosa  porque j conheo a angstia de 
minha prpria solido. 
E acontece, ainda, que no contnuo fluxo de nosso existir, os acontecimentos esto constantemente 
mudando de sentido, chegando mesmo a passar de um significado para o seu oposto. Assim, o que  
novo vai se tomando velho com o decorrer do tempo; o que era ignorado toma-se sabido com o 
conhecimento; o que era difcil fica fcil ao ser compreendido; o que era engraado perde a graa 
quando repetido; o que era prazeroso, ao ser compartilhado, toma-se melanclico na solido. 
O nosso existir  realmente cheio de incertezas, pois decorre num fluxo crivado de paradoxos e de 
riscos que nos dificultam ter segurana para agir. A insegurana permanece mesmo quando 
procuramos nos apoiar nas experincias passadas, agindo em termos do que j conhecemos, pois, o 
presente tambm  abertura para o futuro e este sempre contm imprevistos, que, tanto nos 
aparecem em agradveis surpresas, como em tristes desapontamentos e, algumas vezes, at em 
infortnios que podem nos abalar e transformar, profundamente, a nossa vida. 
E por isso que precisamos ter coragem para ser (Tillich, 1972), coragem para viver 
a nossa prpria existncia, pois ao nos abrirmos s nossas amplas possibilidades, precisamos 
nos defrontar com a insegurana de imprevistos, paradoxos e restries. 
A essncia fundamental do homem sadio caracteriza-se, precisamente, pelo seu poder 
dispor, livremente, do conjunto de possibilidades de relao que lhe foi dado manter com o 
que se lhe apresenta na abertura livre de seu mundo. (Boss, 1976, p. 14.) 
E isto, apesar das dificuldades que fatalmente surgiro no decorrer de sua vida. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 53 
Ser sadio existencialmente consiste tanto em se abrir s prprias possibilidades, como em aceitar e 
enfrentar os paradoxos e restries da existncia. A sade existencial est profundamente 
relacionada ao modo como conseguimos estabelecer articulaes eficientes entre a amplitude e as 
restries de nosso existir. 
O ser-doente s pode ser compreendido a partir do modo de ser-sadio e da constituio 
fundamental do homem saudvel, no perturbado, pois todo modo de ser-doente representa 
um aspecto privativo de determinado modo de ser-so. (Boss, idem, p. 14.) 
A pessoa que se encontra doente no dispe livremente e nem normalmente de todas 
as possibilidades de relaes que poderia manter com o mundo (Boss, 1975, p. 19); sua 
relao consigo e com o mundo encontra-se consideravelmente restringida. 
Entretanto, a simples ocorrncia de restries e conflitos na vida da pessoa no  suficiente para 
que ela se tome existencialmente doente, pois, eles fazem parte da prpria vida, O adoecimento 
existencial s acontece quando as limitaes e conflitos no so reconhecidos e enfrentados pela 
pessoa,  luz de suas mltiplas possibilidades, passando, ento, a se tomar exageradamente 
ampliados e dominantes em sua vida. 
Assim, por exemplo, uma pessoa pode adoecer fisicamente e por isso passar a vivenciar dores e 
restries; se estas forem prolongadas e intensas ela pode no aceit-las e no conseguir dar-lhes 
um significado em sua existncia. Neste caso, no consegue abrir-se s outras suas possibilidades, 
ficando revoltada com seu sofrimento, sentindo-se aflita e insatisfeita consigo mesma e com sua 
existncia, ou indiferente e aptica s suas experincias. Ento, as restries e o sofrimento tomam-
se, por longo tempo, predominantes em sua vida e ela passa a ficar existencialmente enferma. A 
insatisfao ou indiferena podem surgir em outras situaes de intenso sofrimento, tais como as de 
morte de uma pessoa querida, perda de algo muito importante, ou frustrao por no conseguir 
atingir um objetivo intensamente desejado. 
Porm, a prpria ocorrncia de fatos que acarretam diminuio de recursos pessoais ou restrio de 
condies externas na vida de um indivduo podem transformar-se num estmulo para que ele se 
dedique  descoberta e atualizao de possibilidades das quais, at ento, no havia percebido 
possuir, ou no as havia valorizado suficientemente, para se dispor a atualizlas. O importante  que 
ele reconhea as suas limitaes para que possa, tambm, transcendlas, de algum modo, atravs da 
descoberta de suas outras possibilidades. Em outras palavras,  necessrio que a pessoa aceite as 
situaes de sofrimento e com elas se envolva, para que consiga compreend-las e ter, ento, 
condies de se abrir s suas possibilidades de existir, que continuaro sendo amplas, apesar das 
restries e sofrimentos que estiver vivenciando em determinado momento. 
A diminuio de abertura s prprias possibilidades est profundamente relacionada  
diminuio do envolvimento e sintonia da pessoa com as situaes de grande sofrimento que 
54 YOLANDA CNTRO FORGHIERI 
ela experiencia, relacionadas a conflitos e restries com os quais ela se defronta, sejam estes 
devidos a circunstncias pessoais ou externas e de natureza fsica, psquica ou existencial. Nos 
momentos de intenso sofrimento,  comum a pessoa sentir-se sozinha e distanciada, no apenas das 
situaes concretas, mas, principalmente, de seus semelhantes. Esta vivncia de distanciamento e 
solido dificulta-lhe ou lhe impede, temporariamente, de se envolver nas situaes e, 
conseqentemente, de compreend-las, ou lhes atribuir significado em sua existncia. E como o que 
percebemos no so os fatos em si mesmos, mas, sim os seus significados (Binswanger, 1963, p. 
114), enquanto a pessoa permanecer distanciada da situao, no visualiza as peculiaridades desta e 
os recursos que possui para enfrent-la; conseqentemente, fica sem saber como agir para se 
libertar de seu sofrimento e prosseguir o curso normal de sua existncia. 
Algumas pessoas, ao vivenciarem situaes de grande contrariedade relacionadas a conflitos ou 
restries de sua existncia, apresentam manifestaes somticas desse seu sofrimento, como por 
exemplo forte dor de cabea ou um cansao intenso, no justificados por razes orgnicas ou pelos 
esforos fsicos despendidos. Quando essas manifestaes somticas tomam-se prolongadas, 
freqentes, ou muito intensas, podem vir a se constituir em restries acentuadas que dificultam a 
abertura da pessoa a muitas de suas possibilidades de existncia e ela toma-se, ento, 
existencialmente doente. A esse respeito Binswanger (1973, 1977) e Boss (1975, 1976) referem-se 
a exemplos de enfermidade existencial, nos quais o indivduo chega a perder os sentidos, a 
manifestar paralisias, cegueira ou surdez, sem leses orgnicas que as justifiquem. Entre esses 
exemplos Boss (1975) relata o caso de uma jovem que desmaiou ao experienciar o conflito de 
sentir, ao mesmo tempo, e de forma muito intensa, atrao e repulsa por um jovem, no momento em 
que defrontou-se com ele na rua. Ficou, ento, entregue  situao, sendo completamente dominada 
por sua relao contraditria com a mesma, de forma confusa, pr-reflexiva, sem condies sequer 
para perceb-la, analis-la e chegar a uma deciso sobre como agir naquele momento. Esta sua 
vivncia manifestou-se em seu desmaio, que foi a expresso corporal do quanto sentia-se paralisada 
existencialmente. 
Sob o ponto de vista fenomenolgico, h perturba es somticas que revelam sob o 
aspecto corporal uma possibilidade de comportamento existencial que a pessoa no 
conseguiu levar a bom xito. (Idem, p. 23.) 
Entretanto, apesar de vivenciar momentos de restrio, conflitos e intensas contrariedades, o ser 
humano saudvel, embora nessas ocasies possa ficar inicialmente confuso, aflito, ou alheio  
situao, acaba conseguindo recuperar o envolvimento e sintonia com o seu sofrimento, atribuindo-
lhe significado em sua existncia. Desse modo consegue, tambm, recuperar a abertura s suas 
possibilidades e passa a ter condies de decidir entre elas, em qual pretende empenhar-se e quais 
as aes com as quais quer comprometer-se para resolver, superar ou aceitar uma determinada 
situao. 
ENFOQUE FENOMENOLGICO DA PERSONALIDADE 
No decorrer da vida, h pessoas que no conseguem reconhecer e aceitar a insegurana, paradoxos 
e limitaes de sua existncia, sentindo-se confusas, desanimadas, alheias ou revoltadas diante 
deles; h outras que se sentem to ameaadas e angustiadas diante dos concretos ou possveis 
riscos de sua vida que procuram deles esquivar-se de algum modo. Essas pessoas passam a viver de 
modo restrito, empobrecido, minimizando a atualizao de suas potencialidades e a descoberta e 
compreenso de si e do mundo; embora consigam vivenciar raros momentos de alguma satisfao, 
costumam sentir-se predominantemente insatisfeitas e contrariadas consigo mesmas e com sua 
prpria existncia. Essas pessoas encontram-se existencialmente enfermas. 
Por outro lado, h indivduos saudveis, que reconhecem e aceitam a insegurana, limitaes e 
paradoxos de sua existncia e tm coragem para assumi-los, envolvendo-se nas situaes e 
enfrentando os riscos para tentar resolv-las. Desse modo, eles vo gradativamente, abrindo-se s 
suas possibilidades de existir, desenvolvendo suas potencialidades e conseguindo ampliar, cada vez 
mais, a compreenso de si e do mundo. Tais indivduos vivenciam momentos de contrariedade, 
aflio e angstia, porm, sentem-se predominantemente tranqilos e satisfeitos consigo prprios e 
com a sua existncia. 
A essncia de todos os sofrimentos humanos fundamenta-se no fato de que a pessoa perdeu 
essa capacidade de se abrir e de se decidir livremente acerca de suas possibilidades de 
comportamento normal... Os mtodos psicoteraputicos tm por objetivo devolver  pessoa, 
na medida do possvel, a livre disposio de suas possibilidades existenciais de 
comportamento que respondem aos dados do mundo. (Boss, 1975, p. 24.) 
A atuao psicoteraputica no sentido de auxiliar a pessoa a recuperar a abertura s mltiplas 
possibilidades de sua existncia foi assunto do qual tratei, anteriormente, em outro trabalho 
(Forghieri, 1984a). Nessa atuao,  de grande importncia a presena genuna do terapeuta; por 
meio dela pode ser viabilizada a recuperao do envolvimento e da sintonia da pessoa com o mundo 
e consigo mesma. Afinal, desde o incio de nossa vida aprendemos a viv-la com algum... algum 
que nos envolveu, acolheu e ensinou a dar os primeiros passos nessa longa, difcil e perigosa 
caminhada que constitui a nossa existncia. 
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